O livro "Aves Brasileiras e Plantas que as Atraem" é um clássico da ornitologia. Seu autor é o engenheiro industrial Dalgas Frisch, paulistano, filho de dinamarqueses, dedicado e competente estudioso dos pássaros. Sob sua orientação, os ensinamentos da obra têm sido colocados em prática, com sucesso, pela Usina São Martinho: em suas terras, nas regiões de Ribeirão Preto e Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo, cerca de 1,6 milhão de árvores frutíferas mantêm as áreas povoadas de pássaros. A goiabeira, por exemplo, seduz o sabiá e o sanhaço, enquanto os periquitos não resistem aos encantos da palmeira jerivá. O trabalho da usina indica a viabilidade da produção sustentável, evidenciando que o devido manejo dos ecossistemas possibilita a preservação da flora e da fauna, em harmonia com o agronegócio.
Ações desse tipo podem ser uma reposta à ameaça indicada no novíssimo estudo da Convenção das Nações Unidas para Combate à Desertificação (Unccd). O relatório alerta que, até 2050, o mundo perderá 50% das áreas destinadas à agropecuária, caso não se adotem providências capazes de os manter vivos e produtivos. Como se não bastasse o risco ambiental e o impacto na produção de alimentos, o documento observa que a desertificação também aumenta a emissão de gás carbônico, somando-se às causas do aquecimento global. É um círculo vicioso!
Em paralelo, alguns países sem as mesmas condições brasileiras buscam transformar alimento em biocombustíveis, como ocorre nos Estados Unidos com a produção de etanol de milho, algo realmente incongruente com a realidade e as necessidades da humanidade. Tudo conspira contra a produção de comida. O quadro sobre as conseqüências fica mais claro se observado o que indica relatório do Banco Mundial (Bird): 74% dos pobres no mundo dependem da agricultura.
Nesse preocupante cenário, o Brasil tem excelente oportunidade de obter imensa vantagem competitiva, consolidando-se como o maior fornecedor de alimentos para o mercado internacional. Basta fazer, com empenho e eficácia, a lição de casa de preservar e impedir a desertificação em sua fabulosa área agricultável, a maior do mundo, que cobre 235,1 milhões de hectares.
É importante lembrar que, em 2004, foi lançado o Plano Nacional de Combate à Desertificação (PAN), com o anúncio de numerosas ações. Contudo, o cumprimento do programa não parece ser eficiente, pois a área total de desertificação no País aumentou de 900 mil quilômetros quadrados, em 2003, para 1,3 milhão de quilômetros quadrados, em 2007. Isto equivale a 15,7% do território nacional. Segundo o próprio Ministério do Meio Ambiente, se essa degradação não for contida, as regiões semi-áridas do Brasil podem transformar-se em áridas ou semidesérticas, num prazo de 60 anos.
Da mesma forma, as regiões subúmidas secas irão transformar-se em semi-áridas e serão as que mais sofrerão os impactos do aquecimento global no Brasil. Essa superfície mais ameaçada corresponde ao Semi-Árido, que reúne todos os estados do Nordeste e Minas Gerais, e a uma área subúmida seca, que compreende o Espírito Santo. No Pampa sulino também já se observam sintomas preocupantes.
O Brasil tem todas as condições de recuperar as áreas degradadas e mais ainda de se dedicar a uma irreversível agropecuária desenvolvida sob os critérios da sustentabilidade. Tudo continua favorável ao País e dos diferenciais competitivos que lhe proporcionam o seu imenso território e a natureza abundante. É perfeitamente factível tirar da terra os alimentos e os biocombustíveis de que o mundo precisa e preservá-la, utilizando de modo inteligente e responsável os recursos hídricos, minerais e geológicos. Nesse processo, têm especial papel a pesquisa e a inovação, considerando que o aumento da produtividade é outro fator exponencial para o adequado manejo da terra e para conciliar produção com preservação.
Como se observa, o fomento do agronegócio, que tem sido um dos principais pilares de sustentação da economia e do superávit comercial brasileiro, torna-se cada vez mais atrelado ao exercício da responsabilidade socioambiental. Não se pode mais dissociar esse conceito da agropecuária. Sedimentar de modo amplo essa consciência, envolvendo as políticas públicas, os empresários rurais e toda a sociedade, será um passo decisivo do País rumo ao seu pleno desenvolvimento.
* João Guilherme Sabino Ometto, engenheiro (EESC/USP), é vice-presidente da Fiesp, presidente do Grupo São Martinho e membro do Conselho Universitário da Universidade de São Paulo.


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